quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Os Albinos, o por quê.

Olá. Meu nome é Jorge. Eu sei que não poderia começar de modo mais medíocre. Mas era isso que minha vida era antes de me mudar pro Rio. Mas não se enganem, medíocre no lugar de onde venho significa muito acima dos padrões. Pelo menos isso me poupava do trabalho doméstico, da limpeza da fazenda, do cheiro de estrume matinal na sola da minha bota.

Sim, eu venho do interior. Minha família é dona de uma grande extensão de terra na maior parte improdutiva, como boa toda boa e comportada oligarquia interiorana ao modo antigo. Especulação imobiliária foi como meus ancestrais ergueram nossa decadente fortuna, gasta ao longo dos anos com extravagâncias dos filhos, sobrinhos e netos cada vez que passavam pelo que costumo chamar "ritual de passagem dos Albinos". Basicamente é isso que estou vivendo agora, ou fingindo viver só para meu nome não passar em branco na velha, ressecada e habitat de insetos e outras criaturas furtivas que é minha árvore genealógica.

Mas como eu disse antes, para desespero da minha família, eu sou um medíocre. Em termos da minha família isso é tão grave como uma doença terminal. Para mim, uma forma de escapar do destino cruel de uma tradição de golpes, incestos, estrume de cavalo e toda sorte de virtudes em nome da preservação da espécie em extinção mas nem menos ameaçadora ao meio ambiente humano que é a nossa geração, os Albinos.

domingo, 6 de setembro de 2009

O que temos de mais valioso é a nossa consciência.

Uma frase forte, sábia. Soou como uma corrente de vida, rompendo a barragem de medos e desembocando na correnteza da esperança. Frase de um Zimbabuano traduzida nas palavras de um repórter brasileiro. No fim do post segue o link para a reportagem.

Sentimentos opostos se atraem? Parece tão verdadeiro quanto a sentença do bem sobre o mal. Acho que eles coexistem, como forças complementares que nos levam à segurança e completude do caminho do meio. O caminho da certeza, sem vontades, apenas elos que se desfazem trazendo um caminho dharmico. Que sempre existiu, diga-se de passagem.

Bom, aos diálogos.


Três amigos bebiam num bar. Um estava cansado, o outro bêbado e o terceiro, entediado.

O primeiro - o cansado - disse:

- Como a vida se arrasta. O tempo tem um pé pesado e posso ouvir sua idade no chiado do chinelo dos meus avós pela casa. Diminuta sensação de liberdade, esmagadora certeza da incansável fluidez que se arrasta. E se arrasta. E se desgasta, cada vez mais pesado. - Eis que cai no sono profundo e continua a ladainha em sua memória.

O segundo - bêbado - interrompe:

- Que isso. É alucinação mesopotânica! Berço da loucura, você é o satanás. Afasta esse miasma do meu doce que o sabor do prazer é amargo. Fico doce quando não custo nada pra lembrar. - E vomitou todo o ressentimento.

O terceiro - o entediado - não disse nada. Pegou uma cerveja, ficou bêbado, permaneceu calado e saiu a nado.



e o link galera! http://www.youtube.com/watch?v=EII-ZWi-JM0
abraços

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A simbologia não tem fim

Resolvi falar do amor de escrever. Porque todo amor é uma entrega. Uma entrega sem a dádiva de ter para si, porque a ilusão da posse só existe num tipo de amor. Estou falando do amor tudo, amor todo. Esse que é difícil até de imaginar. O amor ser. Porque, no fundo, a gente só é. Achar que é alguma coisa já não é mais ser. Porque aí vem a dúvida, vem o não-ser; aquilo que não sou. E me vou para fora de mim. Se o mim é o fora, se o fora é o mim, faz parte do que sou. Pra que dividir, segmentar? Só porque tenho na pele o estigma da alma de não entender o que já é? Talvez sejam apenas palavras vazias e confusas. Mas é assim que se libertam de mim. Escrever, o amor de se libertar.

Eu entrego, sem amor, apenas sou a entrega. Das palavras amigas, bondosas e até mesmo inimigas aos olhos do leitor. Sou o que se despede da palavra e aquele que a abraça como num reencontro de um velho amigo ou amor perdido, reatado. Perdido só para o corpo, vale saber. Porque é esse que se ilude, se confunde. A alma não, vagarosa, viaja por aí, se abraçando, se olhando, se beijando. Na pedra, na dor, na morte, no nascimento, no parto de um livro, na história, numa canção.

Acabei de ver uma peça, estou nela ainda, carrego comigo nessa viagem de dadas as mãos. Pois num só corpo, num só espírito que é de mudança, de eterno devir. Carrego comigo o que não é de mim, mas o que sou.

Uma criança perguntou a um senhor de meia idade qual era o sentido da vida. Ele apontou para frente, depois pra trás, pros lados e pra si. Tão perplexo com a pergunta quanto com a reação, quedou-se aos pés do menino e o agradeceu por te-lo encontrado. A quem? o menino perguntou.
A mim. disse o profeta de barba branca e chapéu rosé.