O jardim do meu quintal cresceu e me engoliu. Lá estava eu, pequenino em meio às aranhas, jasmins, formigas e minhocas. As cascas de ovo e folhas caídas eram o pavimento daquele mundo bagunçado mas que cheirava à vida! Maravilhado com as copas das plantas caí num buraco de minhoca (wormhole) e fui parar numa outra dimensão, sem meu corpo. Fui esmagado, triturado e condensado num conceito líquido de identidade que se plasmava na multidão do cosmos.
Eu respirava os orbitais atômicos em cada partícula celeste. Camadas de valência era meus meridianos e paralelos fazendo do meu mundo uma fissão nuclear.
Sonhos eram irradiados para todos os cantos do universo, levando calor à timida criatura no seu conforto de caverna. Batia na própria perna achando que era algum tipo de doença aquela agitação na pele promovida pelo meu Sol.
Fui dormir na mocidade da ignorância e acordei no Apocalipse do conhecimento e regeneração do mundo.
Segunda-feira, 11 de Maio de 2009
Segunda-feira, 27 de Abril de 2009
Belvedere
Escureceu na cidade de Belvedere e eu acendi o meu cachimbo. Dei umas tragadas bem violentas para afastar o tédio e me espreguicei na cadeira de balanço, bem no meio da varanda. Os gatos passavam, as crianças entravam em suas casas e umas luzes piscavam lá no céu. Eu sentia o gosto do tempo passar no bico de madeira do meu velho amigo, sempre com o melhor fumo.
Tudo bem, vou ser sincero com vocês, não era fumo de qualidade, mas assim o imaginava por pobreza na alma e esperança no paladar.
Um anel de fumaça no ar, uma história para contar.
Há dois mil anos eu estava em uma carruagem levando uns rapazes de uma cidade a outra. Eram 13, um vinha prozeando comigo.
- Meu pai tem grandes planos para você, meu filho.
- E que planos seriam esses, seu moço? - eu desconfiava um pouco daquele jeitão caipira, sabe. mas tinha um semblante tão radiante que queimava um fumo estranho na gente.
Daí ele me disse um monte de coisas que eu não fiz sentido algum e foi-se embora, no meio da viagem.
Hoje eu sinto saudade dele e daquele fumo estranho que queimava no meu peito. Ainda carrego um pouquinho comigo e tento saborear no bico do cachimbo mas não esquenta o bastante. Pena que o céu se esqueceu de cantar. Daria uma bela poesia.
Tudo bem, vou ser sincero com vocês, não era fumo de qualidade, mas assim o imaginava por pobreza na alma e esperança no paladar.
Um anel de fumaça no ar, uma história para contar.
Há dois mil anos eu estava em uma carruagem levando uns rapazes de uma cidade a outra. Eram 13, um vinha prozeando comigo.
- Meu pai tem grandes planos para você, meu filho.
- E que planos seriam esses, seu moço? - eu desconfiava um pouco daquele jeitão caipira, sabe. mas tinha um semblante tão radiante que queimava um fumo estranho na gente.
Daí ele me disse um monte de coisas que eu não fiz sentido algum e foi-se embora, no meio da viagem.
Hoje eu sinto saudade dele e daquele fumo estranho que queimava no meu peito. Ainda carrego um pouquinho comigo e tento saborear no bico do cachimbo mas não esquenta o bastante. Pena que o céu se esqueceu de cantar. Daria uma bela poesia.
Domingo, 29 de Março de 2009
A donzela de ferro
Sentei-me ao lado da donzela de ferro e começamos a prozear.
- A senhora está há muito tempo aí, paradona?
- Ah, já tive muita agitação na juventude. Abrindo e fechando, com um monte de gente estranha entrando em mim, sem pedir licença. Alguns até contra a vontade. Vai saber. Dizem que minha frieza não é lá muito atrativa. Mas nunca estive sozinha na juventude. Ai, bate uma saudadezinha. Era bom sentir aquele sangue quente dentro de mim, sabe?
- E ainda não sente?
- Como poderia? Nada corre aqui dentro se não for de outra pessoa. Não consigo nem imaginar toda aquela bagunça de veias e coração batendo fora do compasso. Sem métrica alguma. Não, não dá pra entender. É mais fácil cuidar dos meus espinhos. Ah, meus espinhos. Garantia de prazer.
- Mas isso não doia nos outros?
- Ah, mas se doia eu não sei. Tinham uns gritos, sim. Lágrimas, às vezes suplícias embaraçosas. Mas eles sempre voltavam, sempre tinha gente chegando. Então eu acho que agradava. Sim, agradava de certo.
- A senhora acha certo tirar a vida de outrem por prazer?
- Vida, quê isso?
- E as outras donzelas, também estão aposentadas?
- Sim, sim. Todo mundo. Bom, não posso afirmar com certeza. Pensando bem acho que ainda tenho uma prima que consegue uma diversão de vez em quando. Coisa esporádica e sem costume. Falta gente especializada no merchandising.
- Merchan? Pra que vocês precisam disso?
- Ah, meu filho. Ninguém vinha por livre vontade. Era preciso gente pra fazer propaganda, sabe. Só depois que esses moços aí (e moças) enganavam todo tipo de gente, fazendo acreditar que eles me queriam antes mesmo de saberem, é que eu podia me emperequetar toda, colocar meu anúncio nos vilarejos, esbanjar saúde. Coisa essa que eu acabava tirando dos outros, não sei como. Mas era lindo. Todo aquele vermelho e depois o corpo caia no chão, saciado, acho eu. Fazia direitinho do jeito que me fizeram. Foi bom aquele tempo.
- E agora?
- Agora ferro é ferrugem. Não sei por quê. Espero que um dia chamem de volta o rapaz de 1445. Aqueles gemidos jamais esquecerei.
- Mas provavelmente a senhora o tirou a vida.
- Vida, quê vida?
E assim sentamos no trono do tempo aguardando a ressurreição final. Eu saí para pegar uns biscoitos. E suco de pêssego.
- A senhora está há muito tempo aí, paradona?
- Ah, já tive muita agitação na juventude. Abrindo e fechando, com um monte de gente estranha entrando em mim, sem pedir licença. Alguns até contra a vontade. Vai saber. Dizem que minha frieza não é lá muito atrativa. Mas nunca estive sozinha na juventude. Ai, bate uma saudadezinha. Era bom sentir aquele sangue quente dentro de mim, sabe?
- E ainda não sente?
- Como poderia? Nada corre aqui dentro se não for de outra pessoa. Não consigo nem imaginar toda aquela bagunça de veias e coração batendo fora do compasso. Sem métrica alguma. Não, não dá pra entender. É mais fácil cuidar dos meus espinhos. Ah, meus espinhos. Garantia de prazer.
- Mas isso não doia nos outros?
- Ah, mas se doia eu não sei. Tinham uns gritos, sim. Lágrimas, às vezes suplícias embaraçosas. Mas eles sempre voltavam, sempre tinha gente chegando. Então eu acho que agradava. Sim, agradava de certo.
- A senhora acha certo tirar a vida de outrem por prazer?
- Vida, quê isso?
- E as outras donzelas, também estão aposentadas?
- Sim, sim. Todo mundo. Bom, não posso afirmar com certeza. Pensando bem acho que ainda tenho uma prima que consegue uma diversão de vez em quando. Coisa esporádica e sem costume. Falta gente especializada no merchandising.
- Merchan? Pra que vocês precisam disso?
- Ah, meu filho. Ninguém vinha por livre vontade. Era preciso gente pra fazer propaganda, sabe. Só depois que esses moços aí (e moças) enganavam todo tipo de gente, fazendo acreditar que eles me queriam antes mesmo de saberem, é que eu podia me emperequetar toda, colocar meu anúncio nos vilarejos, esbanjar saúde. Coisa essa que eu acabava tirando dos outros, não sei como. Mas era lindo. Todo aquele vermelho e depois o corpo caia no chão, saciado, acho eu. Fazia direitinho do jeito que me fizeram. Foi bom aquele tempo.
- E agora?
- Agora ferro é ferrugem. Não sei por quê. Espero que um dia chamem de volta o rapaz de 1445. Aqueles gemidos jamais esquecerei.
- Mas provavelmente a senhora o tirou a vida.
- Vida, quê vida?
E assim sentamos no trono do tempo aguardando a ressurreição final. Eu saí para pegar uns biscoitos. E suco de pêssego.
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