quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Os pés estão úmidos, o chão, molhado. O vazamento não pára e o reflexo dos móveis embaralha os olhos. Azulejos azuis e brancos no chão, uma torneira gotejando na pia de mármore branco e eu no sofá, vermelho como o Sol que se põe no horizonte da sala, de paredes de vidro.
Assopro um vento gelado pela brecha dos lábios, arrepio os pêlos do braço, a ponta dos dedos formigam. Desço no sofá e sigo até a geladeira, cinza, massiva. Bebo uísque.
Apalpo os seios, diminuíram. A pele começa a enrugar em certos pontos do corpo, falta de carne. Mas sigo adiante.
Volto pro quarto, acendo uma vela. Oro uma prece por um nome em vão. Mim mesma. Sinto sua falta, mas o peito não dói. Cavou em si um buraco negro e sujo de solidão. Estou só. Eu mesma, na cama vazia, e um chá gelado na cabeceira, meu cúmplice. Quem me entende, só os dias, as tardes, as horas sem valor. Só o choro agitado de um sonho infantil, sem dono, sem mãe nem pai. Sem amor.
Os ossos começam a aparecer, na face, a beleza mórbida. Só o cansaço, o sono. Mas devo aparecer! E depois, o nada. E eu rio histericamente na cara da morte porque temo, e teimo. Sou eu, mais nada além nem antes. Por isso fujo, finjo e expulso. Expurgando desse deserto sem fim que me criou, dessa vida sem morte. Desse desejo sem sorte. Dessa vontade de ser o que jamais sou. Ninguém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

comunique-se